quinta-feira, 14 de maio de 2015

A garota sem nome - Capítulo I





A garota sem nome


"Meu coração ferve"




Depois de muitos dias na UTI a rotina era a mesma – Notícias de cada um que entrava em meu quarto. A moça da faxina era um noticiário ambulante. Repetia todas as notícias dos telejornais enquanto limpava os móveis, o chão e o banheiro. Através dela eu sabia tudo que acontecia no mundo. Camilla me colocava a par de todos os documentários apocalíptico dos canais da TV a cabo. O mundo se preparando para o fim do mundo. A garota que trazia meu almoço sabia tudo sobre moda e o mundo das celebridades. Ela era muito bonita, descobri que guardava secretamente o sonho de ser um dia uma atriz tão famosa quanto Mariana Ximenes. Nos poucos dias que voltei do coma virei expert em Mariana Ximenes e Brad Pitt. Ela não gostava de Angelina Jolie, gostava de Mariana e em sua cabeça plasmava uma união Brad-Mariana. Insistia que eles eram almas gêmeas. Veja como combinam! Ela dizia colocando duas revistas lado a lado, unindo duas fotografias. Os dois vestindo branco. Eu olhava e admitia, formavam um belo casal. Ela era estranha, a moça da cozinha.
O lugar geográfico da minha queda: Curitiba. Cidade ao sul do Brasil, capital do Estado do Paraná. Até aqui nada despertou similaridades com a minha vida antes da queda. O buraco branco no cérebro persiste. O que fazer quando puder deixar o Hospital? Sem casa, dinheiro e sem saber qual a minha profissão para sair em busca de trabalho?
No primeiro dia que fiquei lúcida, ao acordar do coma, uma policial magra de cabelos de cor indefinível me interrogou. Era como se ela tivesse passado um produto para tirar a cor de seu cabelo e ele ficou da cor do pelo de alguns cavalos. Nem loiro; nem castanho. Ao pensar cavalo, vi um cavalo sem cavaleiro rasgando uma rua de terra. Não sabia se era uma lembrança, por isto me calei. A mulher não era muito paciente. Interrogou-me, um pouco irritada ao perceber que meu cérebro era uma tabula rasa.
Muitos dias depois de acordar e me deparar com o branco hospital e o branco passado, a porta abriu.
Eu não me lembrava de nada do mundo anterior. No meu mundo anterior existiam tantos homens másculos como este? Meu corpo ainda não se recuperou, mas, o corpo judiado sacudiu todo quando voltei meu rosto para o homem que adentrou o quarto. A calça jeans de cor negra surrada grudada ao corpo e a camiseta negra com a inscrição Policial Federal da cor do ouro antigo desbotado em suas costas, o coturno que imprimia força a seus passos. O corpo de exatas proporções, cabelos curtíssimos entre o loiro e o castanho, a pele bronzeada contrasta com a cor clara dos cabelos, uma cicatriz abaixo do queixo e outra acima dos cílios. A carne rasgada e costurada não tira a beleza daquele homem, o olhar é avassalador. Triste. Derrama dor daquele negror. Fico muda, chateada, ansiando desaparecer embaixo dos lençóis. Os hematomas parecem ressaltar ainda mais os cabelos desajeitados espalhados, a camisola do hospital que não ajuda em nada. Sou eu esta aberração convalescente. Ele fecha a porta atrás de si, diferente de todos que entram neste lugar. Todos deixam a porta aberta, ele a fecha. Dá dois passos, imprimindo uma confiança de 007. Sinto que meu corpo afunda mais no colchão, me encolho. Aquela sigla não era para me assustar. Policia Federal. No entanto, ele assusta com tanta força e carisma.
—— Olá, sou agente federal Verdan... Como estás?
Fico muda e ele me interroga com o olhar, como a indagar se a queda afetou minha fala.
—— Disseram que devia entrevistá-la, já pode falar?
—— Sim.
Pensei ter dito sim, ele ouviu sim? Talvez, pois o próximo passo que deu foi em direção a uma poltrona atirada no canto do quarto, levou-a para mais perto da cama e sentou-se. Olhou para mim, examinando meu corpo enquanto eu corava. Tudo que estava visível acima dos lençóis. Os braços estendidos na cama, pleno de marcas roxas. Os seios quase que totalmente visíveis através da camisola de algodão do hospital, meus lábios com aquele corte já cicatrizando, a perna imobilizada.
—— Bela queda...
A forma como ele disse, enquanto a cabeça sinalizava um sim, me fez rir.
—— Você deve ser estrangeira, não há nada no sistema a respeito de suas digitais, ou DNA. Nenhum arquivo apontou sua identidade subjetiva. Seria muito útil uma mínima informação, mas, em sua ficha médica não existe nenhuma informação.
Menos, agente federal. Penso encarando seus olhos profundos. O que ele quis dizer com minha identidade subjetiva? Não existo? É isto? Ele silencia por cinco segundos e prossegue...
—— Nenhuma lembrança? Nada?
Penso em falar sobre o cavalo na estrada rústica e o sonho da praia, mas, me calo...
Balanço negativamente a cabeça.
—— Dr. Adão a descreveu como alguém bem articulada e inteligente, que se expressa com clareza. Não esperava encontrar uma garota muda, parece assustada.
Sinto que cada milímetro da minha pele adquire o vermelho fogo de um vulcão em erupção. Odeio você Verdan... Odeio. Uma mulher nem ao menos tem direito de ser mulher, se estiver alquebrada em uma cama, se estiver sob a mira dos federais e médicos, se estiver frágil e dolorida e sem memória.
—— Hoje estou cansada.
—— Por ser um caso atípico, nos chamaram. E, espero ajudá-la a encontrar sua casa, sua família e a desvendar todo o mistério, senhorita X...
O sorriso dele é isto? Esta covinha do lado esquerdo? Esta luz vazando da tristeza que ele guarda no olhar? Qual o teu segredo? Deves ter mais segredos que eu...
—— Volto amanhã, espero que esteja melhor para começarmos a elaborar um plano de busca e investigação... Fique com meu cartão...
Ele estende a mão e eu seguro o cartão, a mão direita dele pousa no meu ombro esquerdo como um raio e ele sussurra com uma voz quase sopro...
—— Descanse.
Mal ele fecha a porta eu disparo a campainha para chamar a enfermeira. Quero água, quero água para amainar este calor na pele que foi o embate primeiro com... Samuel Verdan. O nome em mínimas letras negras no cartão... Samuel.

Bárbara Lia
18:00 no bar "O torto" depois do apocalipse

Imagem: Erika Kuhn











A garota sem nome - Capítulo I






A Garota sem nome



Roubaram a minha alma





Senti muita dor na manhã e aplicaram um sedativo forte. Comecei a dizer coisas desconexas, dopada pelo remédio. O psiquiatra entrou no quarto no instante do meu assustado despertar. Eu havia acordado de um pesadelo estranho, mais assustador que filme de terror. As imagens do sonho pululando minha cabeça. O odor forte do lugar onde eu estava no sonho ultrapassou as barreiras do ilusório. Um cenário de Salvador Dali. Uma praia imensa com caravelas negras adornadas com velas largas da cor do trigo estendidas por todo o mar azul. O vento não era inodoro, no sonho ele cheirava a uísque misturado com jasmins, isto embrulhou meu estômago. Na praia uma procissão seguia em silêncio levando uma espécie de altar. No altar não havia imagem, havia uma ninfeta nua. Uma menina ruiva de cabelos longos lembrando a Vênus de Botticelli. O cortejo não atirava rosas à mulher no altar, atirava flechas. Pouco a pouco ela foi ficando rubra, adornada de flechas pelo corpo e o sangue escorrendo lento. Seus olhos não tinham luz e as flechadas não produziam reação alguma em seu rosto, nenhuma dor. Fui caminhando ao largo da praia, escondendo-me atrás de rochas, sem saber se a mim era permitido acompanhar aquele ritual pagão. No final da praia, lá onde um paredão se elevava altivo, eles a desceram daquele trono estranho. Deixaram-na ali atirada na areia. Voltaram cantando canções em um idioma por mim desconhecido. Esperei alguns segundos e corri até onde estava a menina. Era uma criança. Os seios começando a despontar tímidos. Eu os via agora que ela estava perto e que os longos cabelos não envolviam todo o seu corpo. Ela estava ensanguentada e ainda retirava algumas flechas de suas coxas brancas. No sonho eu não falava, buscava com meu olhar o olhar claro dela, para entender o que havia visto. Quando tentei me aproximar mais, ela fez sinal para que eu parasse. Quem são eles? Que idioma era aquele? O que você fez para merecer isto? Ela continuava impassível.
Não entendia as frases que ela começou a dizer. Lentamente. Enquanto ia se tornando invisível, encostada no paredão imenso de pedra, esvanecendo diante dos meus olhos. Um pássaro branco do pantanal brasileiro. Um tuiuiú pousou ao meu lado e me olhou com piedade. O pensamento dele eu traduzi automaticamente e entendi as frases dela que ecoava em meu cérebro, direto do pássaro como se fosse uma transmissão de códigos, convertendo para a minha Língua Mater.
Mereci isto. Cometi o maior crime capital.
O pássaro bateu asas enquanto eu tentava gritar algo como – Qual crime? Qual é o maior crime? O que a menina rubra disse? Roubaram meu coração... Última frase enviada pelo pássaro que já alçava nuvens... Eu pensei naquela alegoria estranha, em como é ter um coração roubado. Seremos punidos se não ficarmos alerta e donos do nosso próprio coração? Pouco a pouco comecei a ouvir as batidas do meu coração. Primeiro ao longe, como se estivesse acompanhando o som de um eletrocardiograma. Depois, foi ficando mais alto e mais próximo. O som compactuava com o som do meu próprio coração. Percebi que era meu coração batendo forte em uma praia imensa, flechas pela areia, sangue de menina em uma trilha profana, o mar em sua eterna dança. O barulho cada vez mais alto. Meu peito sentindo a pressão do sangue e as nuvens palpitando no mesmo ritmo. Toda a praia pulsando alto, cada vez mais alto. Acordei com taquicardia, sentindo o corpo todo em convulsão, suando frio. As enfermeiras fizeram alarde, saíram correndo em busca de ajuda. O médico entrou e aplicou uma injeção que acalmou o meu corpo, lentamente.

Dr. Adão esperou passar a minha crise.
—— Teu pesadelo adveio do remédio. Não tente interpretar os sonhos. Eles não têm muito a ver com o teu real estado e a tua vida real.
—— Não era o que Carl Jung dizia...
—— Como assim? Um dia você lembra uma professora de Português ou uma dessas intelectuais que se dizem escritoras; no outro parece alguém que conhece a ciência médica e até estudos dos meus antecessores. E, ainda assim, não dá uma única pista sobre aquilo que buscamos... A tua identidade.
Percebi que ele se ofendeu por ter questionado a sua linha de trabalho. Ele anda em círculos quando fica nervoso. É a segunda vez que o vejo andando em círculos desde que o conheci. O celular toca e ele o atende na minha frente.
—— Papai está no trabalho, querida... Não está autorizada a ir ao show desta noite, já disse que ainda é muito nova para sair... Não, Gabi. É não!
Ao que parece ele não está em um bom dia. Ele desliga o aparelho e olha-me desanimado.

—— Doze anos e quer dominar o mundo...
Sorrio o melhor dos meus sorrisos para ver se ele se acalma.
—— Além do sonho, algo?...

—— Não. Nada.

Bárbara Lia
18:00 no bar "O torto" depois do apocalipse

Imagem - Salvador Dali

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A garota sem nome - Capítulo I




A garota sem nome



Ouro de Ofir





O passado é uma casa de pássaro ao anoitecer em uma floresta estranha e não marcaram a trilha meio ao verde. Não há mais para onde regressar. O passado é mais branco que um manto de neve - White Hole. Os cientistas estudam o buraco negro e eu me sinto como quem carrega um buraco branco no cérebro.
Hoje li em um salmo a expressão Ouro de Ofir. Preciso encontrar a minha mina secreta, a razão de viver, meu ouro de Ofir. Minha vida que começa aqui, depois do nada, do vácuo, do branco e da tábula rasa.
O psicólogo foi chamado até a UTI para falar comigo. Chamam-me de cidadã X. Comentei com o psicólogo que se eu vivesse nos Estados Unidos me chamariam de Jane Doe. Ele perguntou:
—— Você vive nos Estados Unidos?
Eu disse:
—— Não. Certamente se lá vivesse eu acordaria do coma falando inglês fluentemente.
Ele sorriu. A seguir comentou sobre o meu Português fluente. Alega que devo trabalhar em algo que envolva a mente e não o corpo. Sem pedir licença, tomou minha mão e alisou minha palma. No início fiquei constrangida, depois pensei: É apenas um médico realizando seu trabalho.
 ——Sem calos nas mãos e falando fluentemente a Língua Portuguesa, sabe denominações de filmes policiais americanos, táticas da polícia.
Cai de um viaduto e por sorte o carro que seguia pela rua naquele instante parou. O meu corpo deu um giro, como um atleta em seu salto olímpico e meu pé tocou o chão estourando ossos da minha perna, evitando a morte certa caso eu caísse com a cabeça no asfalto. Não morri, mas o impacto foi forte e fiquei triturada e estendida no chão. Entrei em coma, fui operada, engessada, entubada. Acordei cinco dias depois, com manchas roxas pelo corpo inteiro e sem saber ao menos meu nome. Uma testemunha que estava à janela de seu apartamento contou que fui empurrada por um vulto negro. Roupa de malha negra, capuz negro. Não pode ver o rosto. Uma incógnita a minha queda. Agora, converso com Dr. Adão por uma hora a cada manhã. Ele é psicólogo da polícia. Os policiais estão decididos a desvendar quem é a moça sem memória.
Disse a ele que li o salmo na noite passado ––– Ouro de Ofir.
Ele sorve o café e estende o olhar para a chuva batendo na vidraça. Sinto uma ternura de gênesis por ele. Eu que sou gênesis da cabeça aos pés, um mundo novo, desconhecido, um lugar que eu nem sei. Procuro em seus dedos uma aliança e não há nada. Como posso saber tanto sobre vida e sociedade, sobre técnicas policiais e alianças e não lembrar quem sou, onde vivo e a quem amo. Amo alguém? Alguém me ama? Certamente a pessoa que me atirou no asfalto não me ama. Ou ama demais? Ele suspira como quem não sabe mais que caminho seguir para abrir alguma porta na memória desta mulher. Olha o bloco de anotações. Olha para mim.
—— Segundo avaliação dos médicos você não tem mais que vinte anos e é de origem europeia. Pele clara, olhos claros. Aparenta ter tido excelente educação. Pele cuidada, dentes perfeitos, nem ao menos uma obturação. Muito bem. Não usa piercing nem tatuagem. Isto facilitaria, acredite. Um brinco de brilhante que não facilita a identificação. É isto. Roupas da moda, qualquer menina da tua idade possui. Para desespero dos investigadores não trazia um celular. Estranho uma garota não ter um celular.
Dr. Adão bate o bloco de anotações na palma da mão, adquire um ritmo qual o dos pingos de chuva. Um som seco que ecoa no mesmo ritmo da chuva. Vez ou outra levanta os olhos para mim como quem busca uma resposta. Suspira e considera encerrada a conversa.
-—— Amanhã vou passar aqui novamente. Tem um bloco ali na tua mesa de cabeceira, uma caneta. Caso recorde algo anote na hora. Não sabemos como está esta tua cabecinha. Para evitar lapsos de memória, regressão depois de algum flash de recordação, por favor, anote para mim. Volto amanhã, espero que amanhã esteja melhor.

Eu me sinto péssima com a perna direita ligeiramente elevada, suspensa no ar. Meus braços envoltos em faixas, os sinais roxos por todo o corpo, explodindo sangue pisado quase que acima da minha pele clara. Sorrio com o melhor de mim para o doutor. Ele sai com cuidado, fechando suavemente a porta, cerro os olhos e tento dormir.

Bárbara Lia
18:00 no bar "O torto" depois do apocalipse

Imagem: Beatriz Martin Vidal